Skip to main content

II Conferência Internacional - Cuidar com Humanitude

 

O Abrigo foi convidado para participar na II Conferência Internacional Cuidar com Humanitude, que se realizou na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Em Coimbra, tivemos oportunidade de apresentar a forma como o trabalho de um profissional de enfermagem se estrutura numa Unidade Humanitude. Mas, mais do que uma mera descrição de funções e tarefas, refletimos sobre o que é necessário para que este profissional contribua para a melhoria contínua dos cuidados em Humanitude.

Acreditamos ter sido um bom momento de partilha de experiências e pontos de vista. O aspeto positivo de partilhar o que sabemos e aprendemos, é aumentar a probabilidade de aprendizagem com a perceção que os outros têm de nós. Além da nossa participação enquanto oradores, tivemos mais uma vez, o privilégio de ouvir os autores da filosofia Humanitude e do Método de Cuidados Gineste-Marescotti: Yves Gineste e Rosette Marescotti. Como sempre: inspirador!

humanitude

Envelhecimento ativo e humanitude

 

O Abrigo foi convidado a partilhar a sua experiência como Unidade Humanitude na Escola de Verão “Envelhecimento Ativo e Humanitude”, iniciativa acolhida no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e promovida em articulação com o Instituto Gineste-Marescotti Portugal. Para apresentar a nossa experiência fizemos um bom exercício de melhoria contínua: refletimos sobre a prática e sistematizamos e organizamos o conhecimento.

Começamos por caracterizar o Porto de Abrigo antes de ser Unidade Humanitude e apresentamos os momentos marcantes do nosso percurso, desde a formação teórico-prática ao reconhecimento formal como Unidade Humanitude. Demos a conhecer a metodologia de trabalho que elaboramos e adotamos: redefinimos os procedimentos de trabalho, redesenhamos processos e revimos o nosso sistema de gestão documental. Partilhamos estratégias de resolução de problemas e dificuldades, caracterizamos a organização atual do Porto de Abrigo e, principalmente, partilhamos os pilares que definem a nossa atuação no dia a dia e caracterizam a nossa forma de estar e viver.

Acreditamos ter contribuído, através da apresentação da nossa experiência e exemplo, para a disseminação da diferença de cuidar em Humanitude. Foi um orgulho dar a conhecer a nossa casa e o nosso trabalho. E, foi também um prazer, levar a pronúncia do Norte a passear à capital.

humanitude

em três andamentos

O tempo perguntou ao tempo «quanto tempo o tempo tem?». E o tempo respondeu ao tempo que «o tempo tem três tempos e precisamos saber em qual viver para nos sentirmos bem». Passado. Presente. Futuro. Essa é fácil, toda a gente sabe. Vamos, pois então, à pergunta que não quer calar: qual deles acontece aqui e agora, onde a vida se faz, numa sucessão incessante de instantes que passam num piscar de olhos?

À primeira vista parece uma resposta evidente e não é de facto muito complicado, até porque o nome não engana. Presente - ou aquilo que está a acontecer a cada segundo de consciência, de nós e do mundo que nos rodeia. Acontece que se fosse assim tão simples não tinha a mesma graça. Nem valia a pena o convite para parar e pensar...

A verdade é que viver no presente (com certeza já deve ter ouvido por aí) tem um tanto que se lhe diga e anda muitas vezes disfarçado de viver em modo de voo, quase como se fossemos melhor treinados para acomodar em vez de resolver a angústia do “vai-se andando”, que é como quem diz deixar a vida correr ao sabor do que der e vier e depois logo se vê.

E se, de repente, nos desligassem o piloto automático e ganhássemos plena consciência de cada momento, a todo o momento? Um tanto ou quanto semelhante à experiência em que damos por nós a prestar muita atenção, sem querer, à conversa que corre na fila do supermercado ou na sala de espera para a consulta…falando nisso, tenho esperança de que esta seja uma experiência universal e transmissível, já não tem mal nenhum ouvir e levar no pensamento, basta só saber não falar quando não é o momento.

Talvez descobríssemos que levamos demasiadas vezes a vida como um jogo de pingue-pongue, a saltar por cima do presente, agarrados ao passado e presos ao futuro. No final das contas o resultado é como ouvia numa conversa recente…a vida passa e não aproveitamos nada. Recordar pode ser viver e sonhar pode ser crescer, mas o truque está em ficarmos mais atentos a cada momento presente, aprendendo a deixar ir dores antigas depois da lição aprendida tanto quanto a não deixar de abrir as portas e janelas que vão lá estar ao virar da esquina.

Há, neste nosso mundo real, quem muito bem o saiba fazer. Pessoas comuns, equipadas com sistema GPS, orientadas no destino de Gerir a Própria Sorte. Quer por o seu a funcionar? Olhe mais para dentro enquanto estiver lá fora.

Sinta, pense sobre o que sente e decida que lutas vale mesmo a pena travar.
Tente, vá em frente, mas seja qual for o resultado, aceite que a vida segue sem parar.
E então, continue. Afinal, há sempre vida no presente.

Marta Faria

elogio do não

Pode parecer a escolha de tema errada para esta época. Ainda em modo descontraído, quando os dias esticam as horas, corridos pela onda de férias que nos leva para onde apetece tão pouco falar a sério… Pois é por isso mesmo, porque os argumentos de sempre estão guardados no fundo da gaveta, aquela que agora deixou saltar cá para fora a boa disposição, a tolerância e o espírito zen, que precisamos aproveitar a oportunidade para falar da importância do “não”, assim de mansinho. E dizer que andamos a tratá-lo muito mal.

É compreensível, na lufa-lufa de todos os dias, que passe despercebido. Mas a verdade é que usamos e abusamos do “não”, de tal maneira que uma palavra que deveria estar relacionada com a tomada de decisão às vezes mais parece um exercício de autoritarismo. Que o digam as nossas crianças e, sobretudo, jovens.

Com o bem-estar do tempo de descanso à flor da pele e o regresso à escola e ao trabalho à espreita, pais e mães, vamos aligeirar: “sim” e “não” andam de mão dada. Como duas faces da mesma moeda, um não existe sem o outro, o que quer dizer que ambos devem ser usados, com moderação. A sua missão não é salvar-nos de cometer erros, mas ensinar-nos a errar melhor, que é como quem diz, perceber a que escolhas nos devemos agarrar e o que devemos deixar cair para poder continuar.

Sim, limites são importantes orientadores do percurso de desenvolvimento, para toda a vida. Sem eles, ficamos à deriva. Só que quando são demais não nos deixam navegar, toldam-nos o comportamento para se desligar do pensamento e seguir, de preferência silenciosamente, que é a maneira mais rápida de lá chegar. Chegar onde? Precisamente, essa é a grande questão.

Por outras palavras, se começa pelo “não”, a educação corre sérios riscos de descambar para a terra pantanosa da proibição, que a cada passo é uma lotaria, já que de olhos bem tapados nunca adivinhamos quando nos sai o bilhete-premiado-da-grande-asneira. Claro que nesta terra já saberíamos que a asneira não devia acontecer! (Perdoem a imagem, provavelmente exagerada). Mas acontece! É a vida.

E não sei bem se será pelo fruto proibido ser o mais apetecido, mas desconfio. Já vi muitos e maus comportamentos mascararem a dúvida e a falta de conhecimento dos miúdos sobre qual deveria ser a atitude mais acertada. E mais grave, o medo da repreensão faz tremer qualquer tentativa de pedir ajuda e lá se vai a voz na hora de perguntar.

Pais e mães, vamos aligeirar outra vez: ninguém nasce ensinado. O papel das crianças e dos jovens é manter a curiosidade para aprender. E a maior parte, a sério, sabe cumpri-lo muito bem. Cabe aos crescidos em redor saber alimentar esta sede, com os truques certos.

Tem aí em casa traquinas a quem ler a cartilha no regresso à escola? Por onde vai começar? Se tem um “não” a querer saltar debaixo da língua, experimente reformular. Aqui fica só uma ideia para se inspirar…um «bom abraço» e um «sei que és capaz» depois de explicar como preparar a mochila, com um ensinamento sobre a forma adequada de estar na escola à medida que se guarda cada caderno, em branco, prontinho para encher de aventuras.

Marta Faria