Em dezembro, com a aproximação do Natal, o nosso coração ficou ainda mais apertado.

Os procedimentos COVID, o distanciamento das famílias, a ausência de abraços de quem mais amamos, o confinamento, as máscaras e todas as limitações que a vida nos impunha.

Foi nesse contexto que nasceu o projeto cartas de amor.

 

Não quisemos inovar, quisemos regressar ao passado.

À altura em que perfumavam os envelopes e que se sabia a hora exata da chegada do carteiro. Quando se recebiam cartas de amigos, de amor e da família distante.

Convidamos as pessoas que vivem no Porto de Abrigo a escrever uma carta à moda antiga. Para enviar pelo correio, com direito a selo, para quem quisessem.

Convidamos de igual forma as famílias a escrever uma carta e a enviá-la por correio para O Abrigo.

Guardamos no coração tudo o que nos faz chegar mais perto das pessoas que amamos.

Estamos muito orgulhosos do resultado das nossas cartas de amor.

As famílias não nos surpreenderam, a sua resposta foi a de sempre: imediata, presente e cheia de carinho.

A felicidade e o brilho nos olhos que as cartas de amor trouxeram foi talvez o nosso melhor presente de natal.

 

Não sabemos quanto tempo falta para ultrapassar o momento que atualmente vivemos.

Sentimos que é fundamental, dar passos para começar a recuperar aos poucos a alegria e a leveza de apreciar o momento.

Por falar nisso, o correio já chegou?

 
De acordo com a orientação da Direção Geral de Saúde, O Abrigo informa que, a partir de hoje, se encontram suspensas temporariamente as visitas ao nosso lar de idosos - Porto de Abrigo.
Agradecemos a compreensão e colaboração de todos.
A equipa do Porto de Abrigo está disponível para o esclarecimento de qualquer questão via telefone.

 

Gostamos de contar sobre aqueles que entram na nossa vida e esta é uma história que se impõe diferente. Porque guarda nos olhos cor de mar e no meigo sorriso memórias de uma vida tão longa que foi preciso viver 100 anos até chegarmos a ter o privilégio de sermos nós a entrar na dela, esperamos que para ficar.


Diz que nunca pensou contar tantos, mas ao que parece existe um segredo para conseguir. Como quem sabe falar sem precisar de palavras baixou a cabeça, chegou-se mais perto, juntou os indicadores num só e ergueu as mãos para partilhar este gesto, em jeito de quem entrega uma sabedoria maior.


É bem provável que estivesse a falar de amor, afinal, diz que o amor foi a sua sorte. Quando não deu tempo de crescer no colo da mãe, que a vida lhe roubou sem idade para perceber nem como nem porquê. Quando não houve meio de ficar com o pai, que em tempos idos não se fazia fé que os homens também soubessem criar.

O amor foi a sua sorte. Quando os tios velhinhos a acolheram para a guardar, lhe deram casa para ficar e primos para brincar. Tanto amor para uma menina só, que os ciúmes deles se confundiam com a vontade de a proteger. E ao lembrá-los, sorri.

O amor foi a sua sorte. Quando o namoro passou a vir, com hora marcada, só para a ver da porta da casa onde não havia ordem de entrar. Mais velho, ela tão nova, envergonhada de o gostar. Tanto amor que ele esperou e ela cedeu, para nunca se arrepender. E ao lembrá-lo, sorri.

O amor foi a sua sorte. Quando tomou para si o desejo dele de não ter filhos, mas a casa se foi enchendo de filhos dos outros que, pouco a pouco, lhe alegraram o coração. Tanto amor que mantém o dom de não precisar do sangue para tecer os laços que a ligam aos outros. E em cada reencontro diário, agradece e sorri.

A Miquinhas completa hoje 101 anos de vida, mas há vários dias que na casa se sente festa. Há certa pompa nesta circunstância, não tem como não ser um dia especial, muito especial. Há, sobretudo, muita honra neste Porto, que lhe é de Abrigo, por podermos presenciar e proporcionar que o amor continue a ser a sua sorte. É, agora, um tanto a nossa também. Muitos Parabéns!

 

 

Esta fotografia assinala o dia em que dinamizamos o workshop "Cuidar em Humanitude" no II Seminário de Investigação, Inovação e Intervenção em Gerontologia, na Escola Superior de Educação do Porto.

Na fotografia estão também cuidadoras do Porto de Abrigo que foram assistir à apresentação. Como é evidente, não podemos ir todos. No entanto, sempre que possível, procuramos garantir a presença de alguém que represente a equipa nestes momentos. Para que sintam e tragam para casa a notícia do quanto enche o coração sentir a reacção das pessoas quando ouvem falar do trabalho do Abrigo. E também, para que nos chamem a atenção para o que faltou dizer. Para que possamos fazer sempre melhor.

Acreditamos que é na equipa de cuidadoras que está o poder de fazer acontecer todos os dias. São estas pessoas que põem em prática os princípios da organização e funcionamento, a filosofia humanitude e a metodologia de trabalho que o Abrigo desenvolveu. Porque não basta saber para onde se quer ir. Quando vamos bem acompanhados, a viagem faz-se melhor!

 

Pouco tempo passava desde que o Porto de Abrigo estava de portas abertas quando chegou às novas vidas, para ficar. Mestre de vocação, não sabia a Micas o quanto ainda havia de ter para nos ensinar.

O rosto de olhos atentos e sorriso simples, os caracóis que os dedos enrolavam, sem precisar de ajuda, todas as manhãs. A postura de quem gosta de gastar o tempo a observar o que passa à volta, tantas vezes as mãos atrás das costas, sem largar o terço e o livrinho pequenino da palavra maior.

Os chinelos para passear pelo corredor e sentar à janela em dias de chuva, o chapéu para acenar o “volto mais logo” à saída para passear pela terra ao sol. A voz grave e o jeito calmo, de quem sabe de si.

Quando estamos em casa, em família, as rotinas tomam-nos os dias e saber que está tudo igual diz-nos quase sempre que continua tudo bem. Mas não naquele dia de verão, porque naquele dia a Micas não chegou. Naquele dia a Micas chamou.

Ao som da campainha foi encontrada caída no chão do quarto e, a partir desse momento, muito mudou. Quase um mês de distância até cumprir o desejo de voltar a casa, tempo que não chega a ninguém para se preparar para a nova vida que trazia o diagnóstico de AVC, a disartria, o défice motor e a disfagia grave.

Um prognóstico reservado quanto à recuperação, sem investimento nas certezas de nada. Só a evidência, ou a impotência, de dar tempo ao tempo. É preciso tempo para aceitar o que não se pode controlar, o que não dá para voltar atrás e mudar. É preciso tempo para continuar.

E com tempo a Micas deixou-nos entrar. Abriu-nos o seu mundo, antes tão só seu, e aceitou a nossa ajuda para a cuidar. Não esqueceu que existe mais mundo lá fora, e quis sair da cama outra vez. Voltou à sala e à família do Porto de Abrigo, demasiado grande para caber completa em visitas no quarto.

Três meses de uma nova vida que foram também muitas horas das vidas de muitas pessoas que lhe querem bem. Momentos de dúvida, ansiedade e angústia. A tentativa e o erro. A intuição ancorada no conhecimento e uma sensibilidade que está sempre em flor, na pele de quem sente e não desiste. Um gesto, assumido e repetido como quem não precisa das palavras para falar: aquela sonda não era para ali estar, por isso não ia parar de a retirar.

Alimentamos-lhe a esperança com a marcação de uma consulta e inspiramo-nos na sua fé para não ter medo de acreditar. Agradeceu-nos emocionada, encheu-nos a alma e o coração. Começamos a procurar respostas para possibilidades que não tínhamos ousado pensar e gente com a mesma vontade de arriscar. Felizmente, as pessoas especiais têm o dom de se cruzar quando algo de muito poderoso tem de acontecer. Foi, certamente, por isso que conhecemos o Dr. Miguel e que este nos apresentou a Dr.ª Isabel.

A quem o doce nunca amargou, foi em consistência de mel que o treino alimentar trouxe de novo a independência que parecia perdida há meio ano, bem na outra vida que já está a ficar para trás. Quando se senta à mesa, a Micas toma uma refeição normal, bebe líquidos e só precisa que os alimentos lhe sejam preparados para que possa usar colher de sobremesa, por ser mais fácil de segurar e levar à boca. Sim, recusa normalmente ajuda para se alimentar. É mesmo verdade e enche-nos de orgulho.

A Micas está feliz, principalmente por não se sentir tão dependente e por se fazer perceber melhor quando quer falar. É só o que importa para ficarmos felizes também. Temos muito para lhe agradecer porque a mestre ensinou-nos a maior das lições: nunca é tarde para recomeçar.

O futuro? Ninguém sabe, mas venha o que vier, vamos continuar aqui para o ajudar a transformar.

 

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