Esta fotografia assinala o dia em que dinamizamos o workshop "Cuidar em Humanitude" no II Seminário de Investigação, Inovação e Intervenção em Gerontologia, na Escola Superior de Educação do Porto.

Na fotografia estão também cuidadoras do Porto de Abrigo que foram assistir à apresentação. Como é evidente, não podemos ir todos. No entanto, sempre que possível, procuramos garantir a presença de alguém que represente a equipa nestes momentos. Para que sintam e tragam para casa a notícia do quanto enche o coração sentir a reacção das pessoas quando ouvem falar do trabalho do Abrigo. E também, para que nos chamem a atenção para o que faltou dizer. Para que possamos fazer sempre melhor.

Acreditamos que é na equipa de cuidadoras que está o poder de fazer acontecer todos os dias. São estas pessoas que põem em prática os princípios da organização e funcionamento, a filosofia humanitude e a metodologia de trabalho que o Abrigo desenvolveu. Porque não basta saber para onde se quer ir. Quando vamos bem acompanhados, a viagem faz-se melhor!

 

Pouco tempo passava desde que o Porto de Abrigo estava de portas abertas quando chegou às novas vidas, para ficar. Mestre de vocação, não sabia a Micas o quanto ainda havia de ter para nos ensinar.

O rosto de olhos atentos e sorriso simples, os caracóis que os dedos enrolavam, sem precisar de ajuda, todas as manhãs. A postura de quem gosta de gastar o tempo a observar o que passa à volta, tantas vezes as mãos atrás das costas, sem largar o terço e o livrinho pequenino da palavra maior.

Os chinelos para passear pelo corredor e sentar à janela em dias de chuva, o chapéu para acenar o “volto mais logo” à saída para passear pela terra ao sol. A voz grave e o jeito calmo, de quem sabe de si.

Quando estamos em casa, em família, as rotinas tomam-nos os dias e saber que está tudo igual diz-nos quase sempre que continua tudo bem. Mas não naquele dia de verão, porque naquele dia a Micas não chegou. Naquele dia a Micas chamou.

Ao som da campainha foi encontrada caída no chão do quarto e, a partir desse momento, muito mudou. Quase um mês de distância até cumprir o desejo de voltar a casa, tempo que não chega a ninguém para se preparar para a nova vida que trazia o diagnóstico de AVC, a disartria, o défice motor e a disfagia grave.

Um prognóstico reservado quanto à recuperação, sem investimento nas certezas de nada. Só a evidência, ou a impotência, de dar tempo ao tempo. É preciso tempo para aceitar o que não se pode controlar, o que não dá para voltar atrás e mudar. É preciso tempo para continuar.

E com tempo a Micas deixou-nos entrar. Abriu-nos o seu mundo, antes tão só seu, e aceitou a nossa ajuda para a cuidar. Não esqueceu que existe mais mundo lá fora, e quis sair da cama outra vez. Voltou à sala e à família do Porto de Abrigo, demasiado grande para caber completa em visitas no quarto.

Três meses de uma nova vida que foram também muitas horas das vidas de muitas pessoas que lhe querem bem. Momentos de dúvida, ansiedade e angústia. A tentativa e o erro. A intuição ancorada no conhecimento e uma sensibilidade que está sempre em flor, na pele de quem sente e não desiste. Um gesto, assumido e repetido como quem não precisa das palavras para falar: aquela sonda não era para ali estar, por isso não ia parar de a retirar.

Alimentamos-lhe a esperança com a marcação de uma consulta e inspiramo-nos na sua fé para não ter medo de acreditar. Agradeceu-nos emocionada, encheu-nos a alma e o coração. Começamos a procurar respostas para possibilidades que não tínhamos ousado pensar e gente com a mesma vontade de arriscar. Felizmente, as pessoas especiais têm o dom de se cruzar quando algo de muito poderoso tem de acontecer. Foi, certamente, por isso que conhecemos o Dr. Miguel e que este nos apresentou a Dr.ª Isabel.

A quem o doce nunca amargou, foi em consistência de mel que o treino alimentar trouxe de novo a independência que parecia perdida há meio ano, bem na outra vida que já está a ficar para trás. Quando se senta à mesa, a Micas toma uma refeição normal, bebe líquidos e só precisa que os alimentos lhe sejam preparados para que possa usar colher de sobremesa, por ser mais fácil de segurar e levar à boca. Sim, recusa normalmente ajuda para se alimentar. É mesmo verdade e enche-nos de orgulho.

A Micas está feliz, principalmente por não se sentir tão dependente e por se fazer perceber melhor quando quer falar. É só o que importa para ficarmos felizes também. Temos muito para lhe agradecer porque a mestre ensinou-nos a maior das lições: nunca é tarde para recomeçar.

O futuro? Ninguém sabe, mas venha o que vier, vamos continuar aqui para o ajudar a transformar.

 

Só damos conta da importância que as rotinas do dia-a-dia têm quando deixamos de as conseguir fazer. Por exemplo, jantar com a família reunida quando o pai vai viver para um lar de idosos.

Nós acreditamos que temos um papel importante em preservar e criar memórias de família. Por isso, convidamos os filhos, netos e sobrinhos para jantar com os pais, avós e tios no Porto de Abrigo. Não é preciso um pretexto para comemorar nem um motivo para celebrar. Fizemos um jantar de família, com todas as famílias, grandes e pequenas, em nossa casa.

São momentos simples, da rotina do dia-a-dia, que constroem momentos felizes na história de todas estas famílias que, de alguma forma, estão ligadas a nós.

Acreditamos que tenha sido uma noite agradável, tendo em conta os elogios que recebemos e a boa disposição de todos os presentes. 

Por fim, queremos deixar registado um singelo agradecimento ao grupo musical Gente Madura por trazer música ao nosso jantar.

Gostamos muito!

 

Imaginem que convidam a vossa família mais próxima para almoçar. Imaginem que põem a mesa e a vossa família vai chegando, vai sentando, vai estando. Entretanto o almoço fica pronto e sentam-se à mesa, entre conversas. E olham à vossa volta e reparam que a vossa família é composta por mais de 60 pessoas. Organizar um almoço assim é quase uma loucura logística... 

No Porto de Abrigo, o almoço de São Martinho foi uma loucura logística feliz. Recebemos as famílias para almoçar num dia muito bonito, com cheiro a castanha assada. O nosso esforço sabe-nos muito bem quando as pessoas reconhecem o quanto é importante para elas poder estar desta forma, em família, em festa. Porque o Porto de Abrigo é um lar, um lugar de vida, onde há dias de festa, dias de ternura.

 

 

No Porto de Abrigo, a música faz parte de nós: em vários momentos do dia é frequente ouvir António Zambujo, Carminho, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Tony de Matos, entre outros; uma manhã por semana recebemos um dos nossos voluntários e o seu acórdeão e quando fazemos festas com as famílias... há sempre momentos musicais. A música é importante para nós mas, só recentemente nos deparamos com o seu poder e potencial. Passamos a explicar:

O Porto de Abrigo está a participar no projeto "A Casa vai a Casa", um serviço de música ao domicílio da Casa da Música, concebido para grupos que não podem deslocar-se à Casa da Música sob o lema "Convidem-nos que nós vamos". O que está a acontecer em cada sessão é extraordinário! Vemos pessoas a tocar violino imaginário e a levantar os braços como nunca o fazem, a tocar piano imaginário, a marcar o ritmo, a vibrar, a cantar, a trautear... com o entusiasmo e dedicação que se tem quando as limitações da saúde e da idade não fazem parte das preocupações. 

Nada do que observamos nas sessões dinamizadas pelos formadores da Casa da Música é mágico. No entanto, estes senhores fazem magia. Uma magia que se consegue encontrar explicada cientificamente na literatura relacionada com a música e com a neurociência: 

1 - A música gera interações auditivo-motoras no cérebro de quem executa e no de quem ouve: pessoas com doenças neurológicas beneficiam dessas interações auditivo-motoras, como é o caso de pacientes com doença de Parkinson, que, apesar da dificuldade de locomoção, conseguem, por meio da música, adquirir um andar mais fluente. Além disso, esses pacientes conseguem dançar ao ouvir música, o que indica o envolvimento de áreas cerebrais relacionadas ao movimento com a simples audição de música (THAUT et al., 2001). Esse efeito estaria relacionado com a ativação de circuitos automáticos de movimento, normalmente perdidos durante o processo degenerativo da doença. O que se argumenta é que os circuitos que normalmente envolvem as áreas relacionadas com a locomoção vão perdendo sua função. A música, no caso, atuaria como um agente diferente ao normalmente utilizado nas tarefas motoras.

2 - Apesar da música e da linguagem utilizarem os mesmos parâmetros do som para a sua organização sonora... a música e a linguagem são processadas de forma independente no cérebro. Esta afirmação é evidente no caso das pessoas com afasia, que mantêm a capacidade de cantar e de reconhecer música, embora tenham dificuldades na fala (ZATORRE; CHEN; PENHUME, 2007).

3 - A música é inseparável da emoção. Através da música é possível criar uma conexão com as pessoas. Quando se vive em luta com os próprios pensamentos, com os medos, angústias, confusão e ansiedade... a música provoca emoções prazerosas, consegue-se entender o que é, não se pensa noutra coisa, não se sente dificuldade. Um estudo conduzido por DRAPEAU et al. (2009) avaliou o reconhecimento de emoções em faces, voz e música por pacientes com Alzheimer. Os resultados mostraram que os pacientes perdiam somente a capacidade de reconhecer emoções em faces, mantendo a capacidade de reconhecimento de emoções em vozes e música.

4 - Não se sabe por que razão a música facilita a aquisição de memória. A existência de pacientes com demência que se esquecem de fatos da própria vida, mas são capazes de cantar canções da infância de cor indica que, se não é especial, a memória para música é, ao menos, diferente da memória para fatos e imagens do quotidiano.

E agora? Agora, somos fãs!!! A Casa vai a Casa é um projeto extraordinário, que nos trouxe uma nova forma de ouvir música: não é só entretenimento ou banda sonora, é instrumento que dá vida! 

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