a experiência do experimentar

 

Refletir e escrever sobre as dificuldades e angústias da condição humana é uma tarefa complicada: é muito fácil ser excessivo, paternalista ou maternalista, condescendente. É muito fácil cair em frases bonitas sobre o sentido da vida que, na grande maioria dos casos e na vida prática, quando precisamos mesmo, não as conseguimos lembrar. No entanto, apesar de complicado é extremamente importante parar para pensar, olhar com outros olhos para nós próprios, para aquilo que fazemos, para os outros, para o que nos rodeia.

No início do ano passado, a Marta Faria foi desafiada a refletir mensalmente sobre o que nós, seres humanos, fazemos e como fazemos no nosso dia a dia. Quem se disponibilizou a acompanhar as publicações mensais foi presenteado com excelentes textos, acompanhados de imagens de pequenos momentos e detalhes do Abrigo. Os textos da Marta são convites irrecusáveis à reflexão, como uma conversa de café com um amigo que sente e pensa sobre as mesmas coisas que nós. Como diz a Marta, "a experiência do experimentar é o que dá vida ao hábito de mudar". E tantas vezes se fala na necessidade de mudança, a mudança em nós próprios, a mudança no mundo mas, efetivamente, para mudar há que experimentar. E o que fazemos? O que experimentamos? O que mudamos? No fim do ano, sem qualquer hesitação, tornou-se evidente que estas reflexões mereciam estar impressas em livro como se fosse possível, de alguma forma, materializar nas nossas vidas as palavras sábias da Marta.

"A experiência do experimentar é o que dá vida ao hábito de mudar" encontra-se disponível para venda. A totalidade das receitas comerciais reverte a favor de O Abrigo - Centro de Solidariedade Social de São João de Ver. Caso pretenda adquirir um exemplar pode dirigir-se pessoalmente ao Abrigo ou escrever para Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Memórias

Sem dar por nada o ambiente volta a transformar-se. Os dias mais curtos escurecem num tempo frio, a precisar de encarnar o espírito nas cores, nos cheiros e nos sabores. É, outra vez, quase Natal.

Provavelmente o ritmo anda acelerado, entre preparativos e preparações. Afinal, há uma festa e uma ceia que não podem faltar. Mesmo assim, acaso se atreva a parar, esta mensagem é para si. Se puder, não deixe de a partilhar.

Este Natal ofereça memórias.

Abrande, inspire e recomece, de coração aberto e sentidos despertos. O Natal não pede prendas, o seu verdadeiro valor está no presente. Um significado para o aqui e agora: sem truques ou malabarismos. Apenas gestos simples, construindo memórias para mais tarde recordar…

A cozinha do forno a lenha a cheirar a doce canela. A sala iluminada à lareira com o crepitar da lenha a ecoar pela chaminé. Quadradinhos de chocolate em contagem decrescente até à noite mais especial. Abraços que soltam corações apertados durante meses longe da vista.

Sofás e poltronas que embalam longas sestas aconchegadas em mantas de xadrez. Histórias de encantar contadas por crianças como gente grande. Canções que afinam vozes de todas as idades em sintonia com as luzes a piscar.

Fotografias onde a família continua a crescer. E vídeos que marcam a passagem do tempo pela vida. Velhos e novos aos baralhos. Cartas e postais que se enchem de mensagens. O queijo que nem sempre pode haver e o vinho que nestes dias não pode faltar. Conversas e gargalhadas a compor o ritmo enquanto o relógio parece parar.

Tempo para estar e ficar.
Feliz Natal.

Marta Faria

Praticar a tolerância

Novembro o mês, 16 o dia. Escolhidos para lhe dedicar atenção, com mais pompa, que as circunstâncias de hoje não deixam muita margem para duvida sobre o quanto ela nos faz falta. A tolerância. E um mundo inteiro a precisar de a praticar.

Esqueça tudo o que sabe, sem receios. Deixe ficar guardado o conhecimento acumulado e parta numa viagem pelo pensamento, com a certeza de quem confia que o saber das experiências feito se entranha debaixo da pele e, como tal, não se perde assim de repente. Tudo o que sabe há-de cá estar, quando voltar. Mas, por agora, embarque nesta aventura, mesmo que se estranhe ao começar. Recorde ou imagine um lugar pouco familiar, na companhia de uns quantos desconhecidos, por tempo indeterminado…suficiente para parecer uma situação de por os nervos em franja, não é verdade?

Parece que já se ouve: “isso não é nada normal!”, em tom de sobrolho levantado… Pois bem, já que falamos de tolerância, leia até ao final. Pensando em cenários mais próximos, vamos partir do bom princípio de questionar sempre e nunca tomar nada como verdade absoluta. Por exemplo, procure responder: o que é isso a que chamamos «normal»?

A regra, o usual. Por outras palavras, o que acontece mais vezes e que por força da repetição nos fazem crer que se torna exemplar. O risco que corremos? Julgar que normal seja sinónimo de acertado, erradamente. A consequência? Fazer cara feia à diferença quando nos esboça um sorriso, sem lhe dar a oportunidade de se apresentar e mostrar que, quase sempre, muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa.

Da próxima vez que vir um mapa repare na quantidade de diferentes caminhos que podem levar de um ponto A a um ponto B. Não hesite em descobri-los, um a um, pelo próprio pé ou na voz de quem por lá passou. Pratique a tolerância, a pensar um mundo melhor. E acrescente valor ao seu saber com tudo o que os outros têm para dar.

Marta Faria

a carta

Olá medo, como tens passado? Espero que esta carta te encontre bem. Ainda ontem ouvi falar de ti, de maneira que fiquei a pensar e resolvi escrever-te a contar sobre os tempos que têm corrido…receio não trazer apenas boas notícias, mas sabes como não são sempre iguais os dias no mundo real.

É verdade, ainda ontem ouvi falar de ti…sabes que tens as costas largas, tu?
Vives em tantos sítios, apareces em tantos rostos, fazes parte de tantas histórias, mas raramente dizes que estás lá. Às vezes consegues andar despercebido demasiado tempo até chegar o momento em que te descobrem e te põem no lugar! E então lá vais à procura de outra casa vazia para ser nova morada.

Acho que podias perder esse hábito de te disfarçares e ires mexer com outros sentimentos só para desviar a atenção quando precisas que olhem para ti. É que as pessoas têm coisas para viver e às vezes custas-lhes muitas oportunidades, como se lhes gastasses as fichas todas antes de aprenderem a disfrutar da montanha russa, que só vale bem a pena depois de passar o frio na barriga no precipício da descida.

Escusas de ter medo, medo. Ninguém te está a mandar embora, sabes porquê? Porque as pessoas continuam a achar que é bem-vindo quem vier por bem. E tu vens por bem, se aceitares ser simplesmente quem és.

Experimenta largar as roupas que costumas usar.
Despe a camisa-de-forças, vá. Afinal, as pessoas que tanto queres prender? Ao contrário do que pensas, acabas sempre por afastá-las, levando-as para longe de si mesmas.
Larga por aí a capa, também. Pára de fazer filmes com a vida de toda a gente que encobres na tua sombra e fazes desaparecer, um pouquinho de cada vez. Se pegarem nela e a quiserem lançar pelas costas, não te oponhas, deixa-os encher de ar o espírito de super-herói.

Observa a sua coragem, espero que te sirva de inspiração. Espero que sigas os seus passos e te enfrentes. Claro que o desconhecido assusta mas se tentares é provável que apareça a esperança para te dar a mão. Se isso acontecer, salta!

Não me leves a mal, medo. Digo-te isto para teu bem. Sei que te aguentas, és mais forte do que julgas, só te falta arriscar. Também sei no que estás a pensar…e se cair?

Então…e se aprenderes a voar?

Marta Faria

em três andamentos

O tempo perguntou ao tempo «quanto tempo o tempo tem?». E o tempo respondeu ao tempo que «o tempo tem três tempos e precisamos saber em qual viver para nos sentirmos bem». Passado. Presente. Futuro. Essa é fácil, toda a gente sabe. Vamos, pois então, à pergunta que não quer calar: qual deles acontece aqui e agora, onde a vida se faz, numa sucessão incessante de instantes que passam num piscar de olhos?

À primeira vista parece uma resposta evidente e não é de facto muito complicado, até porque o nome não engana. Presente - ou aquilo que está a acontecer a cada segundo de consciência, de nós e do mundo que nos rodeia. Acontece que se fosse assim tão simples não tinha a mesma graça. Nem valia a pena o convite para parar e pensar...

A verdade é que viver no presente (com certeza já deve ter ouvido por aí) tem um tanto que se lhe diga e anda muitas vezes disfarçado de viver em modo de voo, quase como se fossemos melhor treinados para acomodar em vez de resolver a angústia do “vai-se andando”, que é como quem diz deixar a vida correr ao sabor do que der e vier e depois logo se vê.

E se, de repente, nos desligassem o piloto automático e ganhássemos plena consciência de cada momento, a todo o momento? Um tanto ou quanto semelhante à experiência em que damos por nós a prestar muita atenção, sem querer, à conversa que corre na fila do supermercado ou na sala de espera para a consulta…falando nisso, tenho esperança de que esta seja uma experiência universal e transmissível, já não tem mal nenhum ouvir e levar no pensamento, basta só saber não falar quando não é o momento.

Talvez descobríssemos que levamos demasiadas vezes a vida como um jogo de pingue-pongue, a saltar por cima do presente, agarrados ao passado e presos ao futuro. No final das contas o resultado é como ouvia numa conversa recente…a vida passa e não aproveitamos nada. Recordar pode ser viver e sonhar pode ser crescer, mas o truque está em ficarmos mais atentos a cada momento presente, aprendendo a deixar ir dores antigas depois da lição aprendida tanto quanto a não deixar de abrir as portas e janelas que vão lá estar ao virar da esquina.

Há, neste nosso mundo real, quem muito bem o saiba fazer. Pessoas comuns, equipadas com sistema GPS, orientadas no destino de Gerir a Própria Sorte. Quer por o seu a funcionar? Olhe mais para dentro enquanto estiver lá fora.

Sinta, pense sobre o que sente e decida que lutas vale mesmo a pena travar.
Tente, vá em frente, mas seja qual for o resultado, aceite que a vida segue sem parar.
E então, continue. Afinal, há sempre vida no presente.

Marta Faria

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