
Pode parecer a escolha de tema errada para esta época. Ainda em modo descontraído, quando os dias esticam as horas, corridos pela onda de férias que nos leva para onde apetece tão pouco falar a sério… Pois é por isso mesmo, porque os argumentos de sempre estão guardados no fundo da gaveta, aquela que agora deixou saltar cá para fora a boa disposição, a tolerância e o espírito zen, que precisamos aproveitar a oportunidade para falar da importância do “não”, assim de mansinho. E dizer que andamos a tratá-lo muito mal.
É compreensível, na lufa-lufa de todos os dias, que passe despercebido. Mas a verdade é que usamos e abusamos do “não”, de tal maneira que uma palavra que deveria estar relacionada com a tomada de decisão às vezes mais parece um exercício de autoritarismo. Que o digam as nossas crianças e, sobretudo, jovens.
Com o bem-estar do tempo de descanso à flor da pele e o regresso à escola e ao trabalho à espreita, pais e mães, vamos aligeirar: “sim” e “não” andam de mão dada. Como duas faces da mesma moeda, um não existe sem o outro, o que quer dizer que ambos devem ser usados, com moderação. A sua missão não é salvar-nos de cometer erros, mas ensinar-nos a errar melhor, que é como quem diz, perceber a que escolhas nos devemos agarrar e o que devemos deixar cair para poder continuar.
Sim, limites são importantes orientadores do percurso de desenvolvimento, para toda a vida. Sem eles, ficamos à deriva. Só que quando são demais não nos deixam navegar, toldam-nos o comportamento para se desligar do pensamento e seguir, de preferência silenciosamente, que é a maneira mais rápida de lá chegar. Chegar onde? Precisamente, essa é a grande questão.
Por outras palavras, se começa pelo “não”, a educação corre sérios riscos de descambar para a terra pantanosa da proibição, que a cada passo é uma lotaria, já que de olhos bem tapados nunca adivinhamos quando nos sai o bilhete-premiado-da-grande-asneira. Claro que nesta terra já saberíamos que a asneira não devia acontecer! (Perdoem a imagem, provavelmente exagerada). Mas acontece! É a vida.
E não sei bem se será pelo fruto proibido ser o mais apetecido, mas desconfio. Já vi muitos e maus comportamentos mascararem a dúvida e a falta de conhecimento dos miúdos sobre qual deveria ser a atitude mais acertada. E mais grave, o medo da repreensão faz tremer qualquer tentativa de pedir ajuda e lá se vai a voz na hora de perguntar.
Pais e mães, vamos aligeirar outra vez: ninguém nasce ensinado. O papel das crianças e dos jovens é manter a curiosidade para aprender. E a maior parte, a sério, sabe cumpri-lo muito bem. Cabe aos crescidos em redor saber alimentar esta sede, com os truques certos.
Tem aí em casa traquinas a quem ler a cartilha no regresso à escola? Por onde vai começar? Se tem um “não” a querer saltar debaixo da língua, experimente reformular. Aqui fica só uma ideia para se inspirar…um «bom abraço» e um «sei que és capaz» depois de explicar como preparar a mochila, com um ensinamento sobre a forma adequada de estar na escola à medida que se guarda cada caderno, em branco, prontinho para encher de aventuras.
Marta Faria

Somos pessoas de sorte. Com sorte.
Trabalhamos numa casa bonita e acolhedora, que além de cuidar de pessoas de forma exemplar também cuida de quem nela trabalha. E cuidar também é levar a passear. Mimar.
Este verão andámos de moliceiro e conhecemos a ilha dos puxadoiros. Aprendemos sobre a arte dos marenotos, a flor do sal, as ostras, provamos salicórnia, vimos flamingos e pernilongos e hoje sabemos mais sobre as salinas e o sal da vida. Na ilha sentimo-nos pequenos face à beleza dos sítios especiais do nosso país que estão bem perto de nós, pequenos face ao privilégio de conhecer projetos construidos com amor, face ao silêncio dos pássaros e ao respeito do homem pela natureza quando dela depende o resultado do seu trabalho.
O dia em que fomos à ilha vai ficar na nossa memória e será certamente recordado por todos nós como um bom momento. Vivemos uma experiência nova e diferente de tudo o que nos é familiar. Acreditamos que viver experiências novas e diferentes fortalece laços que perduram no tempo. A visita à ilha dos puxadoiros faz parte da nossa história, da nossa identidade enquanto Abrigo. Dias como estes reforçam o orgulho que sentimos no Abrigo que somos. E, sim, é muito bom saborear o sal da vida!
Queremos agradecer à Puritana e ao Henrique a partilha do seu conhecimento e experiência, a paixão com que nos apresentaram o seu projeto e o brilhozinho nos olhos quando falam do seu trabalho.

Costuma fazer desporto?
Calma, esta não é uma reflexão sobre estilos de vida saudáveis. Aparentemente.
Ainda que, se não experimentou, há muito quem mostre que esta pode ser uma boa mudança.
O desporto está repleto de ensinamentos sobre a vida. E tudo começa com uma questão de ritmo. Não acredita? Falemos então de ritmo, até porque os dias que correm convidam a desacelerar… Qualquer bom exercício exige sempre uma preparação. Sim, que o corpo é forte mas precisa de saber ao que vai para se aprontar. E de convocar reforços se for o caso de nunca ter tentado antes. Também o nosso dia-a-dia deve ser preparado adequadamente, de modo que cada ação tenha razão de ser e ajude o espírito a enfrentar “as horas de ponta” sem perder o rumo. Seguir desenfreadamente é meio caminho andado para dar voltas sem chegar a lado algum, numa espiral onde não há noção de tempo ou de espaço.
Voltando ao desporto, seria como correr a maratona sem treinar.
Erro crasso.
Dizem os entendidos.
Com sorte de principiante pode bem ser que chegue com facilidade à meta.
Só não pare logo ali, repentinamente, no final.
O corpo precisa seguir diminuindo o ritmo, lentamente. Desacelerar, para perceber que é tempo de dar tempo ao esforço e tratar de se recompor. Descanso equivale a recuperação e é o ingrediente secreto da resistência, esse grande truque que usam as mentes fortes para gerir a subida às montanhas que se escondem por entre os vales de tranquilidade desenhados no mapa da vida.
Descansar para ser melhor…não soa bem?
Bom descanso, então.
Marta Faria

Quando foi a última vez que fez algo pela primeira vez?
Em tempo de tradições a sabedoria popular dá a inspiração para falar de mudança. Mudar é preciso, sempre.
«A vida é feita de constância!», dirão. Nada a opor quanto ao facto de andarmos em busca daquela base de segurança que sabe sempre bem. Ainda assim, para crescer, evoluir, chegar mais longe e mais perto de quem podemos ser, não basta. Mudar é preciso. Quando pensamos em mudança, resistir é um lugar-comum. Somos, de facto, seres de hábitos. Mas alguns de nós, estranhos seres, fazem da mudança o seu hábito constante. E primeiro estranha-se. Depois entranha-se.
De cada vez que experimentamos algo novo, uma sensação de desconforto faz-nos despertar das nossas respostas em modo piloto automático. Só que para lá de um friozinho na barriga e de uma quanta incerteza quanto ao que se possa passar, geralmente o resultado é emocionante. A experiência do experimentar é o que dá vida ao hábito de mudar. E traz mais sabor à vida: alimenta-nos o pensamento, tolda-nos a imaginação, agita-nos o corpo. Na verdade, menos importa aquilo que escolhemos tentar ou sequer se vamos querer repetir. O fundamental é ir, num exercício constante de descobrir e explorar.
Tem uma lista de coisas que gostaria de fazer ao longo da vida? Não a perca de vista, mais tarde. Para já, disponha-se a aceitar o que vier. Experimente o novo a cada dia e faça da mudança um estilo de vida: um caminho novo para casa no regresso do trabalho, uma receita diferente para o jantar, uma visita a um sítio que nunca lhe chamou à atenção, um livro de um tema que não domina, os sons de uma música que não costuma ouvir, conversas com pessoas com quem nunca pensou falar…procure preencher a rotina com uma novidade, aqui e ali.
Não esqueça que a quem muda, Deus ajuda. E verá que quando envelhecer terá muitas e boas histórias para contar!
Marta Faria

Nos últimos dois meses preparámos um encontro dirigido a profissionais que trabalham com pessoas idosas sob o tema "lar doce lar - ser feliz a trabalhar em lar de idosos". Queríamos um dia a ouvir as coisas boas que se fazem na nossa área de trabalho. Porque sobre as teorias e questões técnicas há muita gente a falar. Sobre experiências de sucesso, soluções inovadoras, o dia a dia... nem por isso. Tínhamos a certeza que ia ser um dia inesquecível.
Mas, efetivamente, o número de pessoas que se inscreveram não foram as suficientes para realizar um encontro no formato que pretendíamos. E, como tal, resta-nos informar que o "lar doce lar" foi cancelado. O sabor é amargo, quando sentimos frustração de não conseguirmos concretizar ou atingir algo que desejávamos. O que podemos aprender com o fracasso? São várias as teorias conceptuais sobre a importância de continuar a tentar, que vale sempre a pena, que é a forma como nos levantamos quando caímos que nos distingue, que é determinante etc, etc, blá, blá, blá… Mas, não é com lugares comuns que vamos encontrar consolo.
Fracassar é uma chatice, um desconsolo, e ninguém gosta! São horas de trabalho em vão, expectativas defraudadas, tentar perceber o que falhou, encontrar a explicação… É uma grande chatice! Era agora que supostamente contrariávamos esta ideia pessimista e devassadora com a importância de tentar, de arriscar, de fazer diferente, era não era? Pois, mas não vai ser. O fracasso doí. E assim termina o encontro que nunca aconteceu.
O dia 20 de Maio será para nós mais uma quarta-feira do mês de Maio. Uma outra quarta-feira em que vamos continuar a cuidar das pessoas para quem o Abrigo é uma casa fora de casa. Porque é para isso que cá estamos. Agora... vamos lá trabalhar.